A VOLTA EM MINAS

A VOLTA EM MINAS

 

   

No dia 1º de fevereiro de 2021 iniciamos uma grande jornada de bicicleta. 

Um percurso de 1500 km que nos possibilitou atravessar o estado de Minas Gerais de Norte a Sul em apenas 14 dias. Esta rota faz parte de um projeto maior A VOLTA EM MINAS EM 80 MUNDOS e ainda este ano pretendemos percorrer o estado novamente, mas no sentido leste-oeste. A escolha de iniciar o projeto com esta travessia (Norte-Sul), que a princípio parecia um pouco arbitrária, acabou nos revelando grandes surpresas e alegrias! 

TEXTO
MARCELO CASTRO
FOTOS
FERNANDO BIAGIONI

 

  1. Juvenília – Manga (94km)

A cidade onde tudo começa é Juvenília-MG, o ponto mais ao norte de Minas. Para iniciar nossa viagem, atravessamos a ponte sobre o rio Carinhanha, atrás de nós ficava a Bahia e assim adentramos pedalando em nosso estado. Nos disseram que havia uma estrada de terra até o vilarejo Monte Rei e nos pareceu uma ótima maneira de iniciar o dia, e foi mesmo – uma bela estradinha plana só pra gente, que foi nos aproximando das formações rochosas características do norte (tão diferentes das montanhas aqui da nossa região). Estava muito agradável. De Monte Rei até Manga pegamos o asfalto e à medida que a manhã avançava o calor do norte mostrava ser mesmo implacável. Chegamos esbaforidos e a primeira medida foi tomar um banho no Rio São Francisco antes mesmo de perguntar se o rio estava limpo naquela área. Ufa! Agora nossa tarefa era esperar o calor baixar pra conseguir pensar onde acampar nessa primeira noite na estrada. Ficamos ali na beira do rio até o fim da tarde, quando decidimos nos afastar da cidade e seguir nosso rumo em busca de um lugar tranquilo. Visualizamos no mapa uma lagoa e percebemos que a trilha até lá era bastante usada pelos ciclistas da região; partimos. Qual não foi a nossa surpresa ao nos depararmos com uma porteira fechada e uma placa “Parque Estadual Mata Seca”. A tarde estava chegando ao fim, a cidade já tinha ficado para trás, depois de ter pedalado 90 km sob sol escaldante  precisávamos montar acampamento antes do anoitecer, e foi aí que decidimos pular a porteira e seguir o caminho até a lagoa (um desvio do Rio São Francisco). Nosso receio era encontrar um guarda-parque que nos impedisse de dormir ali e nos lançasse de volta à estaca zero. Seguimos a trilha em silêncio até chegar na beira da lagoa, em companhia apenas dos pássaros, dos grilos e das cigarras… Oba! aquele era o camping dos sonhos de todo bikepacker. (Pra não ficar tão idílico informo que os mosquitos não davam trégua e o calor era insuportável até mesmo pelado dentro da barraca!)               

 

 2.  Parque Estadual Mata Seca – Parque Nacional Cavernas do Peruaçu (49km)

Depois de acordar a tempo de ver o sol nascer, desmontamos acampamento e partimos sem direito a café da manhã. Ainda impressionados com a beleza da Floresta Caducifólia Decidual partimos em direção a São João das Missões. As estradinhas de terra que atravessam o parque se revelaram bastante arenosas e entre o primeiro tombo do Marcelo e o primeiro empurra-bike, nos deparamos com um enorme espécime de Cavanilesia Arbórea, a Barriguda, árvore símbolo da Mata Seca. Que belo encontro! Tivemos que pedir a benção dessa senhora e agradecer pelo venturoso início da nossa travessia. Em São João das Missões, enquanto tomávamos um café, conhecemos o Vicente, um senhor de 74 anos, que nasceu na aldeia Xakriabá e conhece bem a região. Contamos pra ele que dormimos na beira da “lagoa da picada” e ele falou: “Rapaz, mas é lá que a onça bebe água.” Eita! Seguimos pedalando rumo a Itacarambi com o sol rachando, lá nos encontramos novamente com o “Velho Chico” e enquanto esperávamos o sol baixar conhecemos alguns moradores que se aproximavam, curiosos com nosso destino. Foi o caso do Daniel, que se aproximou pedalando e acabou nos contando a lenda do Caboclo-d’Água; um ser mítico, defensor do rio, que assombra os pescadores, chegando mesmo a virar e afundar embarcações. Nos despedimos momentaneamente do São Francisco e seguimos em direção ao distrito Fabião onde acampamos para no dia seguinte visitar o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu.

3.   Peruaçu – Januária (45km) 

O Parque Nacional Cavernas do Peruaçu está localizado a aproximadamente 25 km de Itacarambi. Abriga mais de 140 cavernas, mais de 80 sítios arqueológicos com pinturas rupestres, além da tribo indígena dos Xakriabás. É preciso agendar a visita com antecedência e contratar um condutor para visitar as cavernas. O período de funcionamento e a lista com os condutores pode ser acessada no site do ICMBIO. Nós visitamos somente a Gruta do Janelão e a Gruta do Índio e saímos com a impressão de que este é um dos lugares mais magníficos em que já estivemos na vida! Mas como o tempo urge voltamos pro camping da Pousada Recanto das Pedras, almoçamos uma comida deliciosa e “pneu na estrada”. Saímos três da tarde debaixo de um calor de 35°C mas estávamos tão energizados pela grandiosidade daquelas montanhas que em menos de 2 horas percorremos os 45 km de asfalto até Januária.          

4. Januária – São Francisco (93km)

Saímos cedo de Januária, passamos por Pedras de Maria da Cruz e pegamos uma estradinha de terra muito bonita, o Rio São Francisco corria à nossa direita, havia sombra e tudo parecia perfeito, não fosse por alguns trechos de areia. Quando pegamos a rodovia MG-161 aí começou um dos trechos mais sofridos de toda a viagem. Para começar, a estrada de terra, era puro cascalho com trechos de muita areia, “costela” e buracos por toda parte e pra melhorar a situação o calor ultrapassava os 40°C. Durante duas vezes ficamos sem água e tivemos que procurar uma fazenda para pedir ou não conseguiríamos continuar. Ao chegar em Travessão de Minas avistamos a mercearia do Sr. Raimundo e ali nos refugiamos do sol, bebemos 4 litros de água, comemos praticamente tudo o que ele tinha pra vender e ainda fizemos ali mesmo um macarrão; até um cochilo foi necessário antes de encarar o resto da péssima estrada. Mas o que importa é que chegamos na cidade de São Francisco na hora exata em que o sol estava se pondo atrás do rio. Ê beleza!     

5. São Francisco – Ponto Chique (100km)

Já dizia Guimarães Rosa “O Sertão é do tamanho do mundo.” Aqui realmente é um deserto, a estrada não tem sombra, não tem casas e parece não acabar nunca! Saímos de São Francisco às 7:30 da manhã e pedalamos até às 13:30, quando fomos obrigados a parar porque o calor estava insuportável. Sentamos sozinhos ali naquela pouca sombra e esperamos o sol abaixar antes de voltar para as longas sessões de areia e empurra-bike com o sol castigando. Mas o “Sertão é isto, senhor sabe: tudo incerto, tudo certo” ou seja; nessas horas o que nos resta é encarar a realidade e aceitar o desconhecido pois é ali que mora nossa fonte de inspiração. Tivemos um belo encontro com o Paulo que estava conduzindo uma carroça e nos disse: Viver é isso ai, é fazer o que vocês estão fazendo, aproveitando a vida.

Chegamos em Ponto Chique no fim da tarde e foi impossível não tomar aquele banho de rio na presença dos pescadores espantados com nosso feito do dia.

6. Ponto Chique – Pirapora (113 km)  

Acordamos com o barulho da chuva, ela não parava de cair alternando entre forte e muito forte! Nos aprontamos e ficamos na expectativa de uma trégua que só veio por volta das 8:30 da manhã. Quando a chuva diminuiu saímos pedalando a todo vapor por uma estrada de asfalto relativamente vazia naquela hora e só paramos na Barra do Guaicuí que é um distrito de Várzea da Palma. O nome Guaicuí significa, em língua tupi, “rio das Velhas” que deságua ali no São Francisco. Mas o que nos deixou boquiabertos foi mesmo uma igreja de pedra, ou melhor, as ruínas de uma igreja de pedra do século XVII, que supostamente foi erguida a mando do próprio Fernão Dias que teria morrido ali na beira do Velhas. O que impressiona ali é uma imponente Gameleira no lugar em que deveria existir uma torre, uma árvore que com suas raízes sustenta toda a edificação. “A Guararavacã do Guaicuí: o senhor tome nota desse nome… Mas foi nesse lugar, no tempo dito, que meus destinos foram fechados. Será que tem um ponto certo, dele a gente não podendo mais voltar pra trás? Travessia de minha vida.”         É assim que Guimarães Rosa fala dali… E depois desse ponto certo não havia mesmo como voltar atrás, estávamos cada vez mais impressionados com nosso próprio estado, com tanta beleza, tanta história e tanta cultura.      

7. Pirapora – Luizlândia (117 km)

Chuva-Chuva-Chuva-Chuva-Chuva-Chuva-Chuva-Chuva-Chuva-Chuva-Chuva-Chuva-Chuva

Chuva constante e ininterrupta! Chegamos em Luizlândia do Oeste pedalando de noite e chovendo. Uma verdadeira prova de amor ao bikepacking!

8. Luizlândia – Morada Nova (133 km) 

Saímos cedo em direção a Três Marias, as retas intermináveis e planas haviam ficado lá no norte, agora as subidas começaram a fazer parte do nosso cotidiano e como tudo tem ao menos dois lados, as descidas chegaram trazendo a adrenalina necessária para realizarmos grandes feitos! O Fernando aproveitou a cidade grande pra trocar a corrente da bike que estava apresentando um desgaste que poderia nos deixar na mão. Depois de fazer o reparo preventivo, seguimos em direção ao lago conhecido como “Mar de Minas”. Ali pegaríamos uma pacata balsa que nos levaria até o outro lado da represa. Perguntei ao condutor se precisávamos pagar pela travessia e ele respondeu: ”Se tivesse motor pagava, mas como o motor de vocês é feijão, não precisa pagar nada.” Do outro lado da lagoa a estrada de terra havia tomado chuva a semana toda e estava a mais pura e viscosa lama!    

Mas é a vida… chegamos em Morada Nova, uma cidadezinha muito bonita, e assim passamos da metade da nossa viagem. 

Dia 9.  Morada Nova – Dores do Indaiá (131 km)

Acordamos em Morada Nova e a chuva estava forte! Ficamos ali de olho na janela e quando a água começou a cair mais lentamente, partimos. A paisagem havia mudado completamente, o “Velho Chico” já não corria ao nosso lado. Estávamos agora na região Central Mineira e o terreno ondulado era o nosso novo cotidiano. Passamos o dia subindo e descendo, foram 1500 metros de elevação acumulada e um pôr do sol difícil de esquecer. 

Dia 10.  Dores – Pimenta (145 km)

Às 7 da manhã já estávamos montados nas “máquinas de felicidade” sentido a Luz. Esse primeiro trecho de asfalto (40km) passou rápido e no trevo antes da cidade encontramos o Estanislau em cima de uma bike, um senhor muito gentil de 67 anos que nos ofereceu banana e nos contou que pedala 22km todos os dias. A partir de Luz, nossa rota seguia no rumo do Rio Grande/Lago de Furnas. Fomos presenteados com uma estrada de terra muito bonita, cruzamos alguns rios, paisagens incríveis e tudo corria tão bem que decidimos continuar pedalando através da noite. Até que… 

  • Fernando, você está vendo aquilo ali no céu? 

  • … (Fernando não responde)

  • Eu estou vendo uma linha de luzes brilhantes. São muitos e voam em dupla num intervalo regular. Caramba, que será isso?

  • … (Fernando está mudo)

  • Será que são meteoros? Olha lá, eles estão sumindo! 

  • … (Fernando não disse uma palavra durante 5 minutos)

Chegamos às 21 horas em Pimenta, mais tarde descobrimos que tratava-se da passagem dos satélites Starlink. Foi bonito e um pouco assustador. 

Dia 11.  Pimenta – Santo Hilário (40 km)

No albergue em Pimenta o Gaspar nos deu a senha: chegando em Santo Hilário antes da ponte, pegue a estrada à sua direita para sacar o visual e conhecer a cachoeira. Que dica de ouro! Pegamos a estradinha de terra e logo o Fernando avistou uma trilha de downhill entrando na mata e emocionou – simplesmente foi – olhou pra trás e gritou: Bora? 

Bora!!! Descemos aquela trilha técnica com as bolsas chacoalhando, as canecas tilintando e os chinelos caindo, quando simplesmente fomos obrigados a empurrar na descida por que era só pedra e buraco, mas aí chegamos em uma cachoeira surreal, com uma espécie de cânion na entrada e um dos poços mais generosos em que já nadei na vida! Depois de passar um tempo por ali, tomamos um café e voltamos pra vila que estava totalmente fechada. Ficamos no aguardo do supermercado abrir para comprar os mantimentos necessários para uma noite de camping. Por volta das 16h saímos da cidade e fomos procurar um lugar pra montar nossas barracas. Perto da ponte, as margens do lago pareciam inclinadas e alguns pescadores ainda estavam por lá, talvez do outro lado fosse melhor… quem sabe debaixo da ponte? Enquanto íamos de um lado pro outro pensando, a chuva simplesmente caiu e gritamos: bora pro hotel. O hotel, no caso, era uma gigantesca construção abandonada à beira da estrada, vazia e caindo aos pedaços. Nos abrigamos da chuva e ficamos ali esperando ela passar, porém a chuva não passava e começamos a cogitar que dormir ali seria inevitável. O clima das ruínas era sinistro, com mais de trinta quartos não dava pra ter certeza se realmente estávamos sozinhos ali. Havia garrafas vazias e marcas no chão das suítes e então um pouco antes do sol se pôr a chuva deu uma boa diminuída. Descemos pra pista e em menos de 10 minutos a chuva voltou, foi quando avistamos uma tenda na beira do lago, era um condomínio em construção, foi o tempo de entrar na tenda pro céu cair. Ufa! Resultado: dormimos na beira do “mar de minas” em cima de um confortável deck de madeira.   

12. Santo Hilário – Campos Gerais (86 km)

Esta região (Oeste de Minas) nos surpreendia a todo instante. Fernando já havia avisado que depois de Ilicínea havia um atalho que nos levaria direto para Campo do Meio e nos pouparia uns 50 km, o problema é que ele não sabia se dava pra passar pois no mapa o caminho corria dentro d’água. Haveria uma ponte? Outra balsa? Não sabíamos. O fato é que entramos em uma minúscula ruazinha de terra e já estávamos desistindo quando passou uma van, perguntamos se dava pra chegar em Campo do Meio por ali e o cara olhou pra gente com um sorriso largo e falou “dá sim, dá sim!” Ele era ciclista e entendeu logo o espírito da coisa! Que sorte! Estávamos nas nuvens; uma trilha em um vale lindo só pra gente! Acontece que neste período chuvoso, as nuvens em que pedalamos eram aquelas refletidas nas poças de lama. Um verdadeiro pântano lindo, habitado por muitos pássaros! Chegamos em Campos Gerais felizes e com os pés encharcados. 

 

13. Campos Gerais – Pouso Alegre (153 km) 

 

Chuva! 

14. Pouso Alegre – Extrema (101 km)

Dia 14 de fevereiro, domingo. Não podíamos acreditar que estávamos no sul de Minas, mas a paisagem não nos deixava mentir. Há menos de duas semanas estávamos na Mata Seca e tudo era Caatinga, cruzamos no meio de tanto Cerrado e agora a vegetação ficava cada vez mais densa e verde, isso parece Mata Atlântica! Meu Deus, esses Gerais são mesmo vários mundos! Chegamos em Extrema-Mg na divisa com o estado de São Paulo às 12:35, finalizando assim nossa expedição. Muitos encontros, muitas idéias, muitas sensações e acasos felizes.

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