AFINAL O QUE É BIKEPACKING?

Basicamente, bikepacking é a mistura de mountain bike e camping minimalista. É a liberdade do mochilão junto à autonomia de uma bicicleta. É explorar as estradas, trilhas e caminhos menos percorridos, carregando apenas o essencial. Qualquer bicicleta pode ser adaptada pra bikepacking. Porém, o tipo de bicicleta vai afetar diretamente o tipo de rota. Pra viajar pela Estrada Real, por exemplo, uma gravel daria conta do recado sem maiores problemas. Mas a mesma bicicleta não iria tão bem pelas areias da Rota do Descobrimento, onde seria mais aconselhável uma mountain bike com pneus mais largos. Certifique-se de usar uma bicicleta capaz de lidar com o tipo de terreno que você pretende explorar. De um modo geral, podemos dizer que o bikepacking hoje em dia está dividido em três segmentos: aventuras, competições e expedições offroad.

 

MICRO E PEQUENAS AVENTURAS

Apesar do conceito de “viajar de bicicleta” existir praticamente desde quando elas foram inventadas, o termo bikepacking foi usado pela primeira vez em 1973 por Dan Burden, como sinônimo de cicloturismo. Na época ele carregou mais de 20 kg de equipamento em uma viagem entre o Canadá e o Alasca.

Com o tempo, a expressão passou a ser usada para definir viagens levando apenas equipamentos básicos em uma bicicleta leve o suficiente para explorar as trilhas mais remotas, durante um ou vários dias. As rotas podem variar em distâncias, passeios sub-24 horas (S24O, também conhecidos como overnighters ou micro-aventuras) e até mesmo viagens de alguns dias ou semanas. 

COMPETIÇÕES

Há quem diga que bikepacking tem relação direta com competições. Com o surgimento de corridas como o Tour Divide (que atravessa os Estados Unidos de norte a sul), foi natural que se tornasse necessário ter uma bicicleta leve para carregar somente o essencial. Geralmente as corridas são auto-suficientes, onde o atleta não pode receber ajuda externa. Algumas dessas corridas definem um ponto de largada e chegada, permitindo que o ciclista escolha por conta própria a melhor rota. As bicicletas gravel ganharam popularidade nas corridas de bikepacking. Competições do gênero começaram a aparecer ao redor do mundo inteiro. Esse estilo de bikepacking geralmente envolve o uso de uma bicicleta leve e um kit de equipamentos ultraleves e eficientes. As rotas dessas corridas são tipicamente acima de 400 km em terreno misto, incluindo cascalho, alguns pavimentos e estradas.

EXPEDIÇÕES OFFROAD

Por último, as expedições offroad. Imagine aquela travessia de um continente através das estradas menos viajadas. É o tipo de  cicloturismo  que se diferencia da configuração padrão de quatro alforges por permitir maior liberdade ao viajante. Não existe maneira melhor de viajar através do mundo e ao mesmo tempo se conectar com pessoas, culturas e estar preparado para qualquer tipo de terreno, abrindo caminhos que talvez passariam despercebidos. Desertos, singletracks técnicos, neve, enfim, são bicicletas confortáveis, preparadas para lidar com qualquer tipo de terreno com o custo de que a viagem certamente será mais lenta.

 

 

 

 

 

QUAL BICICLETA DEVO ESCOLHER?

Cada bicicleta abre um novo mundo e cabe a cada ciclista identificar qual estrada quer percorrer. A melhor bicicleta para usar é aquela que você já tem. Se você atualmente já usa uma mountain bike que te transmite confiança, é provável que com poucas modificações, ela seja a bicicleta perfeita. O importante é que ela seja confiável, esteja em bom estado e com a manutenção em dia. Até porque, com a liberdade do bikepacking, é mais fácil amarrar mochilas à bicicleta, sem depender de suportes e bagageiros. Se esse não for o seu caso, existem mountain bikes de cromoly aro 26 por ótimos preços no mercado. São bicicletas resistentes, perfeitas para começar.

Se for o caso de usar uma bicicleta com freios à disco, tenha em mente que freios mecânicos têm uma manutenção mais simples e portanto mais recomendados, principalmente pra viagens mais longas. Um bom freio mecânico bem ajustado terá uma performance incrível. Suspensões e amortecedores são bons até o momento que apresentam problemas no meio de uma viagem. Considere a possibilidade de escolher um garfo rígido. De qualquer maneira, como todo equipamento, descubra o que funciona melhor através da experiência.

 

 

O MAIS DIFÍCIL É SAIR DE CASA

Um equívoco comum é dizer que bikepacking é caro. Embora investir em equipamentos de qualidade nunca seja uma má idéia, certamente não é uma necessidade para se aventurar nesse mundo. Comece usando o que você possui e escolha um lugar pra passar uma noite. Junte uns amigos,  desenhem uma rota e saia de casa já mentalizando o acampamento. Descubra o que você realmente precisa através da experiência. A partir daí, entenda quais equipamentos você vai precisar com o tempo. Lembre-se sempre de aplicar a conduta de Não Deixar Rastros.

 

 

Pra se arriscar em uma micro-aventura de final de semana, listamos alguns itens necessários. Fique a vontade para acrescentar ou excluir conforme sua necessidade.

  • Saco de dormir;
  • Colchonete ou isolante térmico;
  • Travesseiro (dispensável);
  • Barraca (redes ou bivaque também são ótimas opções);
  • Roupa pra dormir (gorros, luvas e meias grossas para temperaturas baixas);
  • Lanterna de cabeça;
  • Passatempo (livro, jogos, sketch…);
  • Kit de higiene pessoal;
  • Roupa extra e chinelo (sempre troque de roupa quando chegar ao acampamento);
  • Faca ou canivete;
  • Isqueiro;
  • Comida e hidratação (se precisar preparar algo, recomendamos fogareiro e utensílios);
  • Panos, toalha de papel, lenço umedecido ou papel higiênico;
  • Ferramentas, kit de remendo, câmara de ar e bomba;
  • Capa de chuva (porque nunca se sabe, rs);
  • Kit primeiros socorros;
  • Power Bank;
  • Protetor solar.

 

 

COMO EU LEVO ESSAS COISAS?

O principal acessório que popularizou o bikepacking foi certamente a  bolsa de selim. Poder substituir bagageiros e racks barulhentos fez com que carregar os equipamentos se tornasse mais leve e por consequência, chegar com mais facilidade a lugares de difícil acesso. É possível distribuir a carga nas bolsas de quadro, selim e guidão sem perder muito a mobilidade. A maioria das bolsas são fabricadas por pequenas empresas, de forma artesanal mas também há muitos ciclistas desenvolvendo as próprias. Comece pela bolsa de selim e a de guidão. Posteriormente adquira uma para o quadro (que varia de tamanho pra cada bicicleta). Como alternativa, analise as possibilidades de usar o que você já tem ou adaptar equipamentos destinados à outros fins.

 

 

Pra começar, sacos-estanque de pescaria funcionam como ótimas bolsas pra uma micro-aventura, desde que estejam amarradas e firmes na bicicleta de forma a não influenciar em sua dirigibilidade. Para viagens um pouco mais longas, se você já tem alforges, talvez sejam a melhor solução. Mas se o plano for explorar singletracks ou terrenos mais técnicos, melhor mesmo é levar as bolsas amarradas. Nessas situações você tem que se divertir e não ficar sobrecarregado com equipamentos. Evite sempre que possível ter que usar uma mochila nas costas. Ao longo do dia, o peso vai incomodar e sem contar que suas costas ficará ensopada de suor. Claro que com o tempo, cada um vai sentir a necessidade de fazer upgrades de equipamento, seja por desgate ou por melhoria.

 

 

Assim como no mochilão, no bikepacking há uma relação entre equipamentos leves e preços altos. Mas talvez seja o equipamento mais leve que vai te permitir encarar situações que você talvez não enfrentaria com uma bicicleta mais pesada. De novo, descubra quais são as suas prioridades através da experiência. Para viagens de vários dias, existem alguns itens essenciais que devem ser cuidadosamente considerados. É necessário um bom kit de ferramentas e reparos para solucionar quaisquer problemas mecânicos que possam surgir. E não saia de casa sem um kit de primeiros socorros. Andar de bicicleta geralmente envolve passar por lugares remotos e acidentados que podem resultar de difícil acesso aos serviços de resgate. Esteja preparado e não corra riscos desnecessários. Tenha sempre um telefone celular, leve um power bank e considere carregar um  rastreador, especialmente se viajar sozinho. Uma boa dica também são pastilhas de cloro caso seja necessário filtrar água.

BICICLETA E CAMPING

Pra gente do Bikepacking Brasil, viajar de bicicleta significa dormir em barraca ou rede. Pra nós, as duas coisas estão conectadas. Essa conexão entre o ciclista e a natureza. A liberdade de poder dormir em qualquer lugar nos permite descobrir lugares que não conheceríamos em um hotel ou uma pousada. Boa parte do equipamento acaba sendo de camping: barraca, isolante térmico, saco de dormir (tudo o mais compacto possível). A estrutura da barraca vai na bolsa de quadro, o restante do equipamento na bolsa de selim ou guidão. Em algumas ocasiões substituímos a barraca e o isolante por uma rede e aí nos basta o saco de dormir. Claro que dependendo da viagem, às vezes é necessário dormir em pousada, hotel ou warmshower. Mas para a verdadeira experiência do bikepacking, recomendamos fortemente o acampamento.

 

 

VALORIZE O ARTISTA LOCAL

Fortaleça a economia local. Valorize a cultura local. Não importa onde você esteja, faça questão de comprar dos produtores e mercados locais. Interaja com as pessoas dos lugares por onde passar. São através desses encontros que surgem as melhores dicas de onde acampar, qual cachoeira visitar ou qual a trilha mais remota. Pra nós do Bikepacking Brasil, boa parte da experiência de viajar de bicicleta está diretamente ligada à arte dos encontros e a troca de conhecimentos e saberes. Escute as histórias locais, aprenda sobre suas culturas e costumes e lembre-se do respeito ao próximo!

 

 

O QUE USAR?

Antes de tudo, viajar de bicicleta significa estar sentado no selim por várias horas durante o dia. Se puder, escolha um bom selim e leve uma pomada para assaduras. Vai fazer diferença.

Opte por usar roupas confortáveis e casuais. Não viaje parecendo que está competindo. Guarde o seu bretelle pra usar em treinos e competições. Não há nada mais curioso que um cicloturista com roupas de ciclismo. Se puder, use camisetas de lã merino. São mais caras mas valem a pena. Elas não retém odor, secam rápido e adaptam a temperatura do corpo. A mesma coisa para as roupas de baixo. Se lã merino está fora do orçamento, escolha camisetas de poliamida ao invés de poliéster. Camiseta de algodão, só pra dormir. Pra pedalar são péssimas. Elas encharcam, retém odor e demoram pra secar. Dê preferência para roupas com tratamento anti-bactericida. Leve também uma calça de trekking, meias confortáveis, segunda pele, luvas, gorro, capa de chuva ou corta-vento.

O que levar depende do destino e da estação do ano. Não faz sentido levar um casaco de plumas pra Bahia mas seria indispensável no altiplano da Bolívia. Sempre que necessário lave tudo com sabão de coco. De preferência, que tenha no rótulo a indicação de tensoativo biodegradável.

Se você preferir viajar com sapatilha, existem hoje no mercado diversos modelos tão confortáveis e discretos quanto tênis. Mas para ficar à vontade no camping, nada melhor que um bom chinelo.

 

COZINHA

A disponibilidade de combustível é o fator mais importante na escolha de um sistema de cozinha, portanto, saber onde você vai é fundamental. Se você estiver pedalando por partes do mundo com uma forte cultura outdoor, com muitas lojas e campings ao ar livre, poderá encontrar facilmente botijões de gás butano/propano para fogareiros. Se você estiver indo mais longe ou para lugares mais remotos, é provável que haja álcool desnaturado e combustível líquido (gás branco, querosene, gasolina e diesel).

 

 

Hoje existem inúmeras formas de cozinhar durante as viagens. Há quem use um sistema multicombustível, há quem use fogareiro à gás, fogareiro à álcool e há quem não leva nada e prefere comer em restaurantes pelo caminho.
Cada sistema tem suas vantagens e desvantagens e cabe a cada um entender através da experiência qual será o melhor.
O tradicional fogareiro à gás combinado com um kit de panelas é certamente o mais recomendado para pequenas aventuras. A desvantagem desse kit é ter que carregar um mini botijão de gás que ocupa um bom espaço, e se acabar, correr o risco de não conseguir encontrar pra comprar. Algumas pessoas preferem fogareiros à álcool ou feito de latinha. Funcionam bem e o etanol pode ser um bom combustível. A grande vantagem é o tamanho compacto e a facilidade de conseguir combustível em praticamente qualquer lugar. Porém a desvantagem é a dificuldade de manter o fogo acesso em dias de muito vento e também ter que carregar uma quantidade considerável do combustível.

Somando todas as possibilidades, existem os kits multi-combustíveis. Esses são mais caros e complicados. São projetados para pressurizar e vaporizar muitos tipos de combustíveis líquidos como parafina (ou querosene), combustível para aviação (querosene com aditivos), diesel, gasolina, e gás branco. Dois desses combustíveis são extremamente comuns na beira da estrada (gasolina e diesel) e é isso que faz desse fogareiro uma escolha bem comum em expedições de longo curso em muitos países ou continentes.
Leve algo como um pedaço de papelão para usar como corta-vento para o fogo, nas mais diversas condições climáticas. Saquinhos ziplock são ótimos para guardar os alimentos.

 

OFICINA E EXTRAS

Tão importante quanto qualquer outro tópico, é a necessidade de um bom kit de ferramentas. Um link da corrente, cabo de marcha e de freio, óleo, pastilha de freio, alguns raios extras, câmara de ar, remendos, bomba de ar, silver tape, fitas lacre tipo hellermann e ferramentas para praticamente todas as partes da bicicleta.
Na maioria das viagens não é preciso usar nada disso. Mas se for necessário, é bom saber que conseguirá resolver qualquer problema.
Equipamentos adicionais incluem cadeado, gps, capacete, câmera fotográfica, power bank, pilhas e tudo mais que você julgar importante.
E pra finalizar, leve água! Melhor sobrar do que faltar.

 

 

PLANEJANDO E NAVEGANDO

Um aplicativo que vale o investimento é o Strava . Na parte de criação de rotas no menu Dashboard/My Routes, ele tem uma função chamada “Global Heatmap” em que é possível ver por onde alguém já passou. Quanto mais pessoas passarem por determinado trecho, mais em evidência ele fica. Muitas vezes é difícil saber se uma estrada é publica ou privada (dentro de fazendas por exemplo) e essa função permite saber se já passaram por ali. Depois de criada a rota, exportamos um arquivo gpx pra subir em um outro site: ridewithgps.

 

 

 

 

O ridewithgps é extremamente fácil e intuitivo de mexer. Nele é possível visualizar a rota com diferentes layers de mapas. Além disso, onde disponível, é possível acionar a função street view. É interessante que no mapa OSM, sempre aparece algum caminho que geralmente não figura em outros mapas.Finalizada a criação, basta exportar o arquivo .gpx para subir no seu dispositivo Garmin, Bryton ou algum outro GPS. Se não tiver o aparelho, dá pra usar os aplicativos tanto do Strava quanto do ridewithgps pra seguir a rota. Se for esse o caso, recomendo um powerbank potente pra não ficar sem bateria no celular.

Outro aplicativo bem interessante é o maps.me. Apesar dos seus mapas limitados (algumas trilhas nem aparecem), ele é bem útil para calcular as distâncias com apenas alguns cliques. Basta baixar o mapa da região em que vai viajar e ele funciona offline. Ótimo pra saber quanto falta pra chegar na próxima vila.

Um aplicativo que apesar de pago possui funções práticas, é o GAIA GPS . É possível sobrepor várias rotas criadas no mesmo mapa e ainda baixar diferentes layers pra usar offline.
Pra finalizar, um dos mais legais é o  iOverlander. Se trata de um aplicativo de plataforma colaborativa onde os usuários sinalizam no mapa, por exemplo, um bom local para acampar, um mercado barato, um hostel mais em conta ou uma oficina. Enfim, em conjunto com os outros aplicativos dá pra criar uma rota já entendendo onde teriam esses pontos de apoio. Recomendadíssimo.
Claro que ainda tem as pessoas que não usam nada disso. Vão no feeling e descobrindo os melhores caminhos perguntando às pessoas pela estrada. Apesar de tudo, nem sempre o planejamento dá certo. Então a sugestão é sempre ter um plano B.
Crie diferentes rotas e vá viajar. Mesmo que dê tudo errado e você decida nunca mais pedalar, pelo menos vai ter história pra contar e dizer que descobriu por conta própria.

 

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Boa viagem!

 

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